Histórias de Condutores

Fernando Bovo Fischer

Fernando Bovo Fischer

Jornalista

São Paulo /SP

A arte de buzinar

Há algumas semanas, meu carro ficou afônico. Por culpa de um ciclista que apareceu de repente por detrás de um ônibus, a contundência do grito que exigi do pobre automóvel fez sua voz sumir num gemido triste e curto. De lá pra cá, nada de buzina. Tenho vivido situações interessantes desde então, mas nenhuma se compara à que ocorreu no último final de semana.

Parado em um daqueles semáforos que parecem demorar uma eternidade fechados e apenas alguns milésimos de segundo abertos (mais precisamente em uma via de acesso à avenida João Dias, na Zona Sul de São Paulo), observei que o motorista da frente, que já vinha me incomodando pela lerdeza há algum tempo e me fizera soltar um sonoro “Tá dormindo, ô rapaz?”, recostou-se no banco, ergueu os braços, juntou as mãos atrás da cabeça e assim ficou, imóvel. Esbocei um sorriso ao imaginar que minha observação de segundos antes poderia estar certa. Fiquei pasmo ao constatar que ela de fato estava. O sinal ficou verde e nada do tal dorminhoco se mover. O buzinaço foi geral. Eu só observava, já que não podia contribuir com o barulho. O sinal ficou vermelho de novo e nós estávamos lá, no mesmo lugar. Pelo retrovisor, via caras inconformadas nos outros carros. O sinal ficou verde de novo. Nem sinal de reação. O buzinaço recomeçou, ainda mais ensurdecedor.

Não havia como escapar da situação. O trânsito era intenso, as pistas ao lado não paravam. Alguns motoristas, lá atrás, tentavam desviar, sem sucesso. Eu, quase encostado na traseira do dorminhoco, só podia esperar. E as buzinas disparavam feito loucas. Foi quando percebi uma certa movimentação no carro de trás. Olhei de novo pelo retrovisor e vi o motorista abrindo a porta e descendo, com cara de poucos amigos. Era um rapaz alto, de físico avantajado, aparentando entre 25 e 30 anos. Sua expressão não escondia: estava pronto para arrumar briga. “Espero que a coisa não fique grave”, pensei. A esta altura, já via uma certa graça na situação. Não queria ver o dorminhoco (resolvi chamá-lo assim ali mesmo, na hora) levar uma sova só porque estava exausto. Pobre homem.

O rapaz continuou andando, aparentemente possesso com Deus e o mundo. Eu o acompanhava pelo retrovisor, curioso. Foi quando ele parou junto à minha janela. Olhei pra cara dele como quem diz “que folgado o motorista aí na frente, hein amigão?”. Mas ele não queria ser meu amigão. Fez sinal pra que eu abrisse o vidro. Abri. E tive que ouvir um sermão sobre como seria importante eu estar buzinando assim como todo mundo. “Você está achando graça em ficar meia hora aqui parado? Buzina essa porcaria” ele dizia, nervoso, apontando para o centro do meu volante, como se eu não soubesse onde deveria apertar pra fazer meu carro gritar também. Fiquei abismado.

Alterado, o rapaz gritava sem parar. Fiquei sem reação. Terminado o discurso, ele deu as costas, voltou para o carro e pôs-se a buzinar novamente. Era um ‘buzinador’ profissional, penso eu. Ainda pasmo com a situação, percebi quando uma lotação passou na pista ao lado disparando a buzina. O motorista dorminhoco acordou num pulo. Olhou para os lados e arrancou cantando os pneus, talvez envergonhado. Demorei alguns segundos pra absorver o que tinha acontecido e arrancar também.

Logo percebi que não buzinar é muito pior do que dormir ao volante e atrapalhar meio mundo. Ao que parece, pior do que cometer um crime é não demonstrar reação. Ainda não tive tempo de passar no mecânico, mas vou quebrando o galho com a lição que aprendi. Ao menor problema, aperto a buzina como se não houvesse amanhã. Som não há. O que vale é a intenção. Às vezes me sinto ridículo, mas logo percebo que ninguém sabe que estou fingindo e a sensação passa.

Mais histórias

Contato

Endereço:
Rua Gomes de Carvalho, 1.356 - 9º andar
Vila Olímpia - SP - CEP 04547-005

Grupo Tecnowise 30 anos